O Impacto Emocional de Crescer em Cenários de Guerra
1 em cada 6 crianças vive em zonas de conflito
Segundo um relatório recente da UNICEF, mais de 473 milhões de crianças em todo o mundo vivem atualmente em áreas afetadas por conflitos armados. Este número é o mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial e continua a aumentar, afetando profundamente a vida e o bem-estar emocional destas crianças.
O impacto da guerra na infância ultrapassa os danos físicos. Crianças que vivem em zonas de conflito enfrentam o medo constante da violência, a perda de familiares, o deslocamento forçado e a interrupção da sua educação. Estas experiências traumáticas podem deixar marcas profundas, influenciando a sua saúde mental e seu desenvolvimento emocional ao longo da vida.
O impacto emocional da guerra na infância
As crianças são as vítimas mais vulneráveis dos conflitos armados. Para além dos riscos físicos, como ferimentos e desnutrição, a exposição prolongada à guerra pode provocar consequências emocionais graves, tais como:
- Ansiedade e medo constantes
Crianças que vivem em áreas de guerra enfrentam o medo diário de bombardeamentos, ataques e separação dos seus familiares. Este estado de alerta permanente pode levar a transtornos de ansiedade e dificuldade para dormir.
- Perturbação de stress pós-traumático (PSPT)
A exposição a eventos traumáticos, como a destruição das suas casas ou a perda de familiares, pode causar PSPT. Crianças com essa perturbação podem reviver o trauma em pesadelos, ter dificuldades de concentração e apresentar mudanças de comportamento.
- Depressão e perda da esperança
O sentimento de impotência perante a destruição e a falta de perspetivas pode levar à depressão infantil. Muitas crianças em zonas de conflito perdem a motivação para brincar, estudar ou sonhar com o futuro.
- Isolamento social e dificuldade em estabelecer vínculos emocionais
O trauma e a insegurança podem fazer com que as crianças tenham dificuldades em confiar nas pessoas ao seu redor, o que pode afetar negativamente as suas relações familiares e sociais.
- Alterações no desenvolvimento cerebral, que afetam áreas relacionadas com a aprendizagem, memória e raciocínio.
A exposição prolongada a situações de stress extremo, como as vivenciadas em cenários de guerra, provoca alterações químicas no cérebro, nomeadamente devido à produção excessiva de hormonas do stress, como o cortisol.
- Hipocampo – zona do cérebro responsável pela a formação de memórias e aprendizagem é denominada de hipocampo. O hipocampo é particularmente vulnerável aos efeitos do stress crónico. A exposição prolongada ao cortisol pode provocar:
- dificuldades na formação de novas memórias;
- problemas de concentração e atenção;
- diminuição da capacidade de aprendizagem.
- Hipocampo – zona do cérebro responsável pela a formação de memórias e aprendizagem é denominada de hipocampo. O hipocampo é particularmente vulnerável aos efeitos do stress crónico. A exposição prolongada ao cortisol pode provocar:
- Córtex pré-frontal – córtex pré-frontal é responsável pelo raciocínio, tomada de decisões e controlo emocional. Alterações no córtex pré-frontal podem resultar em:
- dificuldades no planeamento e organização;
- problemas no controlo de impulsos;
- diminuição da capacidade de regulação emocional .
- Córtex pré-frontal – córtex pré-frontal é responsável pelo raciocínio, tomada de decisões e controlo emocional. Alterações no córtex pré-frontal podem resultar em:
- Amígdala – a amígdala funciona como o centro de processamento emocional do cérebro, sendo que, resposta ao stress crónico fica hiperativa, podendo provocar:
- respostas exageradas a estímulos emocionais;
- dificuldade em interpretar corretamente as emoções dos outros;
- um aumento da ansiedade e medo.
- Amígdala – a amígdala funciona como o centro de processamento emocional do cérebro, sendo que, resposta ao stress crónico fica hiperativa, podendo provocar:
- Maior suscetibilidade a stress na vida adulta
O trauma precoce pode causar anomalias específicas no desenvolvimento e função dos circuitos neuronais, nomeadamente os que estão envolvidos na resposta ao stress, provocando uma hipersensibilidade desses circuitos. Assim, o cérebro “aprende” a ser mais reativo ao stress.
A importância do apoio emocional e psicológico
O impacto da guerra sobre as crianças não precisa de ser irreversível. Com apoio adequado, elas podem reconstruir a sua auto-estima, aprender a lidar com as suas emoções e desenvolver resiliência. Algumas ações essenciais incluem:
Acesso a serviços de saúde mental: Psicólogos e assistentes sociais podem ajudar as crianças a processar os seus traumas e a encontrar estratégias para lidar com o medo e a ansiedade.
Criação de espaços seguros: Escolas, centros comunitários e organizações humanitárias oferecem ambientes protegidos onde as crianças podem brincar, aprender e socializar.
Educação emocional: Ensinar as crianças a identificar e a expressar as suas emoções pode ajudá-las a superar traumas e a desenvolver inteligência emocional.
Apoio familiar e comunitário: O carinho e a presença de familiares são fundamentais para que as crianças sintam segurança e esperança no futuro.


Referências Bibliográficas
– McEwen, B. S., & Morrison, J. H. (2013). The brain on stress: Vulnerability and plasticity of the prefrontal cortex over the life course. Neuron, 79(1), 16–29. Available at: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2013.06.028
– Shonkoff, J. P., & Garner, A. S. (2012). The lifelong effects of early childhood adversity and toxic stress. Pediatrics, 129(1), e232–e246. Available at: https://doi.org/10.1542/peds.2011-2663
– UNICEF (2023). Protecting children in armed conflict: Child protection in emergencies report 2023. Available at: https://www.unicef.org
– Van der Kolk, B.A (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. New York: Viking Press.
– Anda, R., Felitti, V., et al., (2006). The enduring effects of abuse and related adverse experiences in childhood: A convergence of evidence from neurobiology and epidemiology.European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 256(3), 174–186. Available at: https://doi.org/10.1007/s00406-005-0624-
– UNICEF Portugal. (2024, janeiro 30). 2024: Um dos piores anos da história da UNICEF. Available at: https://www.unicef.pt/atualidade/noticias/2024-um-dos-piores-anos-da-historia-da-unicef/